Viagem de um dia de barco e o acesso difícil por estrada de terra são alguns exemplos do que a Energisa de Rondônia tem de enfrentar no projeto Mais Luz para Amazônia

O desafio de colocar em prática o programa Mais Luz para a Amazônia é grande, mas o Grupo Energisa já começou os trabalhos para levar 3.264 ligações de energia a locais remotos da região. O objetivo do Governo Federal é chegar à universalização do serviço em até dois anos com o apoio das distribuidoras.

Responsável pelas concessões no Acre, Mato Grosso, Rondônia e Tocantins (que compreende também Amapá, Amazonas, Pará, Roraima e Maranhão), o Grupo Energisa é o principal distribuidor de energia da Amazônia Legal, região com o maior número de comunidades isoladas do país e onde vivem cerca de 7 milhões de pessoas.

Em Rondônia, os trabalhos já começaram. A empresa Eletrobrax foi contratada pela Energisa e tem como meta fazer o levantamento de dados sobre as comunidades com potencial para receber o fornecimento de energia.

Dário Sérgio Machado, gerente de Negócios da Eletrobrax, explica que as duas equipes de campo que atuam no projeto têm de identificar desde as dificuldades de acesso aos locais até as características de cada residência e comércio visitados – por exemplo, número de moradores, de eletrodoméstico, fonte de renda.

Comunidades remotas

Trabalhos in loco costumam ser mais trabalhosos. No caso de Rondônia, o desafio é ainda maior, a começar pelo acesso às comunidades remotas. As viagens só podem ser iniciadas depois de as duas equipes da Eletrobrax se certificarem das condições de acesso. Essa fase, segundo Machado, é uma das mais críticas. Mesmo com a dificuldade de comunicação em muitas localidades, antes de iniciar o percurso é preciso saber se as estradas estão transitáveis e se os rios têm vazão suficiente para permitir a navegabilidade dos barcos até os destinos. Dependendo do destino, pode ser necessário enfrentar 200 quilômetros de mata fechada em um veículo 4X4 ou um dia inteiro de viagem de barco. Não se pode afastar a hipótese de surpresas como onças e sucuris.

As informações coletadas serão repassadas à Energisa, que, a partir daí, poderá traçar um plano de execução para implementar as melhorias previstas pelo Mais Luz para a Amazônia. Na primeira fase do programa, a previsão é levar o fornecimento de energia a um total de 300 unidades, entre residências e pequenos comércios. A meta total do programa é chegar a 1.294 unidades consumidoras até o final de 2021, num total de R$ 82 milhões investidos, desembolsados pela União e pela Energisa.

Rainon da Silva Brasil, gerente de projeto do Mais Luz para a Amazônia da Energisa e engenheiro eletricista, explica que o programa federal foi criado com finalidade de fornecer energia elétrica à população brasileira residente em regiões remotas da Amazônia Legal que, pelas características geográficas e ambientais, não poderia ser atendida por meio da extensão de rede elétrica convencional. Por isso, as localidades mapeadas vão contar com placas de energia fotovoltaica, que serão instaladas em cada unidade.

Ajuda do satélite

Antes de a Eletrobrax definir o roteiro para a coleta de dados presencial, foi preciso contar com a ajuda da tecnologia. Por meio de imagens de satélite, foi feito o levantamento da localização provável das comunidades. “É o tipo de trabalho que exige desde o uso de equipamentos de ponta até o esforço de longas viagens para chegarmos às localidades. Isso dá uma ideia da celeridade que estamos dando ao programa”, diz Silva Brasil. 

O programa do governo federal exige uma série de pré-requisitos na seleção dos beneficiados com a geração de energia elétrica a partir de fontes limpas e renováveis. Têm prioridade no atendimento as famílias de baixa renda inscritas no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico) ou em programas estaduais.

Também são grupos prioritários os moradores de assentamentos rurais, comunidades indígenas, quilombolas e famílias residentes em unidades de conservação. Ao levar geração de energia elétrica a partir de fontes limpas e renováveis a esses grupos, o governo espera fomentar o desenvolvimento dessas populações, reduzindo a vulnerabilidade social e econômica.

“Apesar de a primeira fase ter a previsão de atender a 300 unidades consumidoras, não dá para saber de antemão o que vamos encontrar em cada comunidade. Algumas casas podem estar vazias, as famílias podem ter aumentado e construído mais residências, por exemplo”, exemplifica Machado.

Cuidados com a pandemia

As informações preliminares apontam que a equipe da Eletrobrax deverá encontrar 3 comunidades na região central de Rondônia, 10 no Norte e 2 no Sul. Na primeira etapa, Machado prevê a visita às comunidades que vivem na reserva extrativista Aqualiquara, próxima aos municípios de Pimenteiras do Oeste (município margeado pelo Rio Guaporé) e Seringueiras (região de Primavera).

No caso das visitas a aldeias, é preciso ter a autorização e o acompanhamento da Funai – só na região Norte serão três áreas indígenas. Por conta da pandemia do novo coronavírus, o prazo de dois meses para a conclusão dessa fase do projeto pode se estender por mais tempo.

“Mesmo com tantas dificuldades, é um projeto muito importante, porque leva condições mais dignas para essas pessoas”, opina Machado. Hoje, alguns desses povoados utilizam geradores para ter energia em parte do dia. Além do custo, essa é uma alternativa poluente.

Com a chegada a energia, não são apenas os hábitos domésticos que deverão mudar, lembra o gerente da Eletrobrax. “Os impactos são grandes. Vão da compra de geladeira ou aparelho de TV, até a instalação de antena de internet.